A mulher atrás da porta

A mulher atrás da porta

        Era um dia triste com toda aquela chuva inundando as ruas, o frio instalava-se fortemente no ambiente, assim como toda a umidade do ar infiltrava-se no tecido das roupas, já passava das 16:00 horas e não pretendia andar muito a procura de um quarto, paro em frente da pousada santa luzia,  um estabelecimento modesto, com fachada simples, tinham 4 andares no edifício da frente com 4 apartamentos por andar, ao lado seguia mais uma fileira de quartos em duas seções, um fila embaixo com 10 quartos e mais a mesma quantidade em cima; Nos fundos tinha mais uma fileira de 5 quartos, com acesso a um jardim pequeno, alguns bonsais e vasos de rosas, uma fonte no centro do jardim circular ornamentava o ambiente, dois peixes grandes sobrepostos a uma base estreita jorravam uma fina linha d’água de suas bocas; Não havia sido muito cuidada, placas de lodo e a cor esverdeada da água davam mostra disso.
            Samuel olhou seu relógio e os ponteiros de um belo relógio falso haviam parado em cima dos números 3 e entre 8 e o 9, deu duas porradinhas no visor, mas de nada adiantou, estava ensopado com toda a chuva que levou, entrou num ambiente côncavo, muito estreito para uma recepção, não havia ninguém para atende-lo, togou a sineta da campainha em cima do balcão, momentos depois surgiu um senhor vestido em um casaco de lã preta, trazendo consigo uma caneca de café fumegante.
            - Em que posso ajudá-lo? – Disse o homem que puxava uma cadeira para se sentar.
            -  Gostaria de um quarto para passar a noite – Disse Samuel
            - Só temos disponíveis os quartos do fundo, perto da fonte, custam 35 a noite – Não havia muita gentileza naquele senhor.
            - Vou querer.
            O homem mexeu nuns papeis por baixo da bancada, depositando um formulário para Samuel preencher.
            - Anote seus dados aqui, o pagamento seria de que maneira?
            - Dinheiro.
            - Ah, dinheiro ótimo.
            Samuel preencheu o formulário depois contou algumas notas até ter o valor de 35, e depositar na mão do senhor.
            - Como o senhor se chama? – Perguntou Samuel ao homem.
            - Fernando, e o seu... – Olhou na ficha – É Samuel, seu quarto é o número 28, siga pelo lado até o final, depois que vê a fonte vire à direita – E entregou-lhe a chave.
            - Obrigado senhor Fernando, boa noite.
            - Boa noite rapaz.
            Samuel virou-se para a saída no exato momento em que viu uma imagem estranha refletida no vidro da porta, mas apenas por um segundo a imagem de uma mulher pareceu encara-lo mas desapareceu logo em seguida. Virou-se rapidamente para o balcão e Fernando estava olhando para ele com um leve sorriso entre os lábios.
            - Você viu? – Perguntou Samuel.
            - Não vi nada rapaz.
            Samuel voltou a olhar para a porta e somente seu reflexo aparecia.
            - A noite é escura, cuidado com os sonhos Sr. Samuel.
            Escutou Fernando falar estas palavras, voltou a olhar para o balcão e não havia ninguém mais ali, um estranho arrepio subiu por sua nuca. Apertou a chave entre as mãos e saiu.
            A chuva havia parado, mas grandes poças dela estavam espalhadas por toda parte, caminhou observando o imóvel, Fernando havia dito que somente os quartos do fundo estavam desocupados, mas os da frente e o do prédio pareciam não ter ninguém, onde deveria estar os carros dos clientes, havia apenas água da chuva, não seria possível que todas as pessoas dali não possuíssem nenhum transporte, bem, Samuel não tinha nenhum, e chegara ali a pé, será que ninguém tem carro por aqui?  Pegou-se pensado nessa pergunta. Depois lembrou-se do que o atendente havia dito A noite é escura, cuidado com os sonhos Sr. Samuel, e depois havia desaparecido tão repentinamente. Samuel admitia que as coisas ali não estavam muito normais, mas poderia ser apenas o cansaço fazendo seus efeitos.
            Chegou ao quarto, abriu a porta, estava escuro, tateou na parede até encontrar o interruptor, com um leve clic a luz acendeu. Não era lá muita coisa, mas tinha tudo que precisava, uma cama com lençóis limpos, um banheiro com toalhas, uma TV velha, ar-condicionado, um guarda-roupas embutido na parede, uma pequena mesa próxima a cama com duas cadeiras; trancou a porta do quarto, depositou suas coisas em cima da mesa, olhou o ambiente, paredes brancas sem quase ou nenhuma graça, tirou seu casaco molhado e depositou sobre uma cabeira; havia também um freezer, abriu e observou que estava desligado e vazio. A cama fora arrumada mais cedo, e o banheiro lavado recentemente, dava para perceber pois tinha um cheiro forte de produtos usados.
            Ligou a TV e deixou num canal de notícias qualquer, um jovem rapaz apresentava o programa, estava dando a notícia de uma enchente causada devidos as chuvas em algum lugar da cidade, Samuel não estava muito preocupado com notícias, nem com as pessoas que tiveram de ser mudadas pois a água inundou suas casas destruindo todos seus bens, tirou toda a roupa deixando-a no chão, até mesmo dentro do quarto o ar estava frio, pegou uma das toalhas e foi para o banho, abriu o resisto do chuveiro até o quente, mas a água permaneceu insistentemente frio, Porcaria.
            Estava muito frio depois do banho, foi pegar uma roupa seca em suas coisas, o quarto estava silencioso, notou que a TV estava desligada.
            - Ora essa, está com defeito.
            Ligou-a mais uma vez e trocou de roupa, depositou a toalha na porta do guarda-roupas, depois deitou-se na cama enrolando-se com o lençol o melhor que pode para se abrigar daquele frio. Manteve o ar-condicionado desligado, já bastava o frio natural, não queria virar um bloco de gelo humano.
            Olhou as horas em seu relógio e estranhamente já eram 18:00 horas, curiosamente agora seu relógio estava funcionando, não percebeu o avanço do tempo. Sentiu fome, então decidiu vestir um casaco e ir comer alguma coisa.
            A TV desligou de súbito, fazendo um zumbido incomodo, Samuel tentou liga-la, mas desta vez não adiantou nada, tirou a tomada e voltou a conecta-la novamente, tão morta como havia ficado antes permaneceu, puxou um pouco irritado a tomate de novo e deixou pendurada, pegou sua carteira e saiu do quarto.
            Chegou do lado de fora, não chovia mais, havia um poste próximo com uma luz acesa que piscava as vezes, vezes demais percebeu Samuel.
            Perto do jardim, este era algo circular e verde, gostou dos bonsais, mas sua barriga queria alimento e não admirar plantas numa luz tênue, caminhou por onde havia vindo antes, se livrando das poças de água, alguns carros passavam pela rua lentamente, mas naquela pousada não existia nenhum, mesmo havendo vagas para eles. Um senhor vinha trazendo um cão pela coleira, era um vira-lata, não reconheceu qualquer raça no cachorro, era um animal de pelos rabugentos e negros, estava tão molhado quanto o dono, de repente o cão encarou e começou a latir e a dar investidas contra Samuel, o dono limitou-se a rir mostrando os dentes que lhe faltava numa enorme janela bucal, o aspecto grotesco de seu sorriso foi o suficiente para fazer a fome de Samuel sumir. O homem velho continuou a andar arrastando o cão que ladrava loucamente, viu momentaneamente os lábios do velho se mexerem, mas sem sair nenhuma palavra, mas Samuel entendeu o que ele disse. Hoje você morre.
            Um ônibus passou muito rápido jogando uma nuvem de água no ar, Samuel virou de costas para tentar se proteger, quando voltou a se virar estava molhado novamente e o velho com o cachorro não estavam mais ali.
            Voltou ao quarto muito perturbado com aquilo, irritado por estar molhado de novo e por perder a fome e pelo que viu nos lábios do homem a lhe dizer, hoje você morre, mas devido a situação achou que era apenas imaginação, mas também tinha o desaparecimento depois da água do ônibus, aquilo não era possível, buscou uma resposta lógica, mas não conseguiu nada.
            - Devo estar ficando louco.
            Pegou a chave do quarto colocou na fechadura, mas antes de girar a chave ouviu um barulho vindo de dentro do quarto, tem alguém lá dentro, pensou.
            Abriu a porta e o barulho que ouviu era da TV ligada, ficou olhando para ela e para a tomada que estava ligada novamente, impossível, fechou a porta, alguém deve entrado no quarto, pensou.
            Olhou suas coisas, mas estava tudo ali, não foi nada mexido ou mudado de lugar, tudo como havia deixado, menos a TV que tinha certeza que estava desligada e fora da tomada. Devo estar ficando louco.
            Na mesa havia também um telefone com a linha direta para a recepção, discou o ramal, ouviu uma breve estática e depois o som da chamada, chamou duas vezes e depois a chamada foi atendida, mas ninguém falou, só o silencio.
            - Alô? – Disse Samuel – Alguém aí?
            Não teve resposta.
            - Alô? Aqui é do quarto 28, tem alguém aí?
            Nada, nenhuma resposta.
            - Alô? Tem alguém ouvindo?
            - Hoje você morre filho da puta! – A vos era arrastada e feminina cheia de dor e ódio em cada palavra.
            Aquilo fez Samuel largar o telefone de súbito, aquela voz de mulher encheu-o de medo até nos ossos, pegou novamente o telefone para ouvir, mas só havia estática e o som da chamada perdida.
            Colocou o telefone na base, a TV não estava em canal algum, apenas chiava. De repente começou a mudar de canal, passando um por um, devagar, depois todos os canais passaram rápidos e mais rápidos, a luz do quarto começou a piscar loucamente, acendendo e apagando, Samuel subiu na cama, a porta do guarda-roupas batendo violentamente, abrindo e fechando, a mesa começou a balançar, suas coisas caíram no chão, uma imagem começou a se formar na TV, uma frase em letras vermelhas parecia escorrer pela tela.
            Hoje você morre Samuel.
            Uma pancada forte na porta do quarto fez Samuel urinar-se, depois outra e outra, a cama começou a balançar, as pancadas eram fortes e sonoras, a cama se mexia loucamente, a mesa também se movia subindo e descendo no ar, as portas da guarda-roupas batiam, a luz piscava, tudo ao mesmo tempo, Samuel estava apavorado.
            Subitamente tudo parou.
            A luz parou de piscar, a cama e a mesa ficaram imóveis assim como as portas do guarda-roupas, a TV desligara. Samuel estava tão assustado que não sabia se continuava ali parado ou se fugia, mas antes de tomar uma atitude a lâmpada estourou deixando o quarto embebido em escuridão, ali ficou na cama, com o sangue em gelo, não tinha forças para se mover, passou-se um logo tempo até seus olhos se adaptarem à escuridão, quando pode distinguir cada coisa no quarto, foi que percebeu que a porta se abria lentamente sem fazer barulho algum, sentiu um frio muito profundo em sua pele, a urina vazou-lhe novamente, quando a porta se abriu por completo, uma figura alta e esguia, estava a encara-lo, uma mulher tão pálida quanto uma folha de papel, sua boca se abriu tão grande e sangue enegrecido escorreu por ela, seus olhos eram duas pedras de gelo, tão brancos e sem vida, mas cheios de ódio, tão rápida quanto algum dia Samuel pudesse supor, ela estava acima dele, na cama, o sangue que caia da boca, escorreu no rosto de Samuel.
            Hoje você morre seu porco!
            A voz dela era fria. Samuel estava paralisado.
            A criatura abriu a boca como uma serpente, tão grande e suja, abocanhou o rapaz que não se movia de medo, enquanto o comia na escuridão daquele quarto, lá fora voltava a chover intensamente.






POR: R.Andrade

14 de junho de 2017

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